O Papel da Amazônia no Futuro do ESG Global
- Fernanda Rios

- 10 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Por Fernanda Rios, sócia coordenadora da área ESG

A Amazônia deixou de ser apenas um símbolo de biodiversidade e exuberância natural para se consolidar como um dos eixos estruturantes da agenda ESG no século XXI. Seu papel transcende o debate ambiental e se projeta como uma variável estratégica nas decisões econômicas, regulatórias e de governança corporativa em escala global.
Não é exagero afirmar que o futuro do ESG global passa pela Amazônia. O que se decide na região influencia o cumprimento de metas climáticas internacionais, o fluxo de investimentos verdes e a redefinição de cadeias produtivas em diversos setores.
A Amazônia concentra cerca de 10% de toda a biodiversidade do planeta e exerce um papel vital na regulação do clima, tanto regional quanto global. É também um dos maiores sumidouros naturais de carbono, essencial para que o mundo ainda tenha chances de cumprir a meta de limitar o aquecimento a 1,5ºC, conforme previsto no Acordo de Paris.
Mas o valor da floresta vai muito além da dimensão ambiental. Preservá-la significa garantir a estabilidade de mercados globais e fortalecer novas economias. A Amazônia é um verdadeiro laboratório vivo de inovação, capaz de impulsionar cadeias de bioeconomia, biotecnologia, farmacologia e de materiais sustentáveis de alto valor agregado. Ao mesmo tempo, representa um ativo geopolítico estratégico, observado de perto por multinacionais instaladas na região, investidores institucionais, governos e organismos multilaterais.
Esse protagonismo, no entanto, não vem sem dilemas. Ele exige mecanismos de governança ESG cada vez mais robustos e efetivos.
O primeiro desafio está nas pressões climáticas e reputacionais. O desmatamento, a degradação florestal e a exploração predatória ameaçam compromissos corporativos de neutralidade de carbono e expõem empresas a riscos de imagem, além de possíveis barreiras comerciais.
O segundo está na inclusão social e na transição justa. As comunidades locais e os povos originários precisam ser integrados de forma genuína às cadeias de valor. Mais do que beneficiários periféricos, devem ser protagonistas, trazendo conhecimento, inovação e práticas sustentáveis que só eles dominam.
Por fim, os novos marcos regulatórios. A convergência de exigências internacionais, como ISSB, União Europeia e SEC, com a agenda regulatória brasileira, incluindo a Resolução CVM 59/2023, as Resoluções 217/218 e a Portaria SUFRAMA 1.860/2025, estabelece um novo patamar de transparência, diligência e accountability corporativa.
A Amazônia não é apenas floresta. Aqui está um dos maiores parques industriais do hemisfério sul, o Polo Industrial de Manaus, que abriga centenas de multinacionais de setores como tecnologia, eletroeletrônicos, duas rodas e farmacêutico.
Para essas empresas, a região representa um duplo desafio: reduzir impactos socioambientais e, ao mesmo tempo, consolidar-se como referência em inovação sustentável.
As oportunidades estão diante de nós e são inquestionáveis. Certificações internacionais como ISO 9001, ISO 14001, ISO 45001, FSC e RBA deixaram de ser um diferencial para se tornarem verdadeiras credenciais de acesso a mercados globais. Ao mesmo tempo, o financiamento climático e os investimentos ESG estão abrindo espaço para cadeias produtivas mais transparentes, descarbonizadas e competitivas. A circularidade e a economia regenerativa, com ênfase em logística reversa, créditos de reciclagem e bioeconomia industrial, se consolidam como pilares estratégicos.
Nesse cenário, ESG já não pode ser visto como uma agenda voluntária. Ele se transformou em um imperativo competitivo, regulatório e reputacional. O que antes aparecia como um apêndice em relatórios de sustentabilidade ou compromissos de marketing agora determina acesso a mercados, a fluxos de capital e, sobretudo, à legitimidade social.
E é aqui que a Amazônia ocupa um papel singular. Não estamos falando apenas de conservação ambiental, mas de uma alavanca estratégica que combina geopolítica, economia, inovação e governança. O futuro do ESG global será escrito, em grande medida, a partir das escolhas feitas na Amazônia. E isso coloca o Brasil em posição única para se afirmar como líder mundial em sustentabilidade.
No Polo Industrial de Manaus, as multinacionais já instaladas e toda a sua extensa cadeia de valor precisam compreender que assumir compromissos reais com a sustentabilidade não é mais uma opção. É um requisito. As empresas que souberem transformar desafios em soluções inovadoras serão as protagonistas da nova economia, em que crescimento econômico, equidade social e preservação ambiental caminham juntos em benefício de toda a humanidade.




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